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domingo, 13 de septiembre de 2015

ABDICAÇÃO - Fernando Pessoa



Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho... eu sou um rei

que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mão viris e calmas entreguei;

E meu cetro e coroa - eu os deixei

Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas de um tinir tão fútil,

Deixei-as pela fria escadaria.
            Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.



Traducción al español

Tómame, oh noche eterna, en tus brazos 
y llámame hijo.
Yo soy un rey 
que voluntariamente abandoné 
mi trono de ensueños y cansancios.

Mi espada, pesada en brazos flojos, 
a manos viriles y calmas entregué; 
y mi cetro y corona—yo los dejé 
en la antecámara, hechos pedazos.

Mi cota de malla, tan inútil, 
mis espuelas, de un tintineo tan fútil, 
las dejé por la fría escalinata.

Desvestí la realeza, cuerpo y alma, 
y regresé a la noche antigua y serena 
como el paisaje al morir el día.



Fuentes: Insite.com.br
Traducción: Poemas del alma

SONHO IMPOSSÍVEL - Fernando Pessoa


Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se este chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.






domingo, 24 de marzo de 2013

CARTAS DE FERNANDO PESSOA A ARMANDO CÔRTES-RODRIGUES

Tomado de la página Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen en Facebook

FERNANDO PESSOA, in CARTAS DE FERNANDO PESSOA A ARMANDO CÔRTES-RODRIGUES (Confluência, 1944; Livros Horizonte, 1983)

COMO A NOITE É LONGA!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...

Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.


(4-11-1914)

viernes, 22 de marzo de 2013

NÃO BASTA ABRIR A JANELA - Alberto Caeiro

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. 



ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA), in POEMAS INCONJUNTOS / POEMAS DE ALBERTO CAEIRO (Ática, Lisboa, 1496; 10ª edição, 1993)

Tomado de la pagina Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen en facebook.

jueves, 31 de enero de 2013

POEMA A BOCA FECHADA - José Saramago

Não direi:
Que o silêncio me sufoca- e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

EL BESO José Saramago

Hoy, no sé por qué, el viento ha tenido un
     hermoso gesto de renuncia, y los árboles han
     aceptado su quietud.
Sin embargo (y es bueno que así sea) una guitarra
     organiza obstinadamente el espacio de la soledad.
Acabamos sabiendo que las flores se alimentan en
     la fértil humedad.
Ésa es la verdad de la saliva.

CATORZE DE JUNHO - Jose Saramago


Catorce de junio

Cerremos esta puerta.
Lentas, despacio, que nuestras ropas caigan
Como de sí mismos se desnudarían dioses.
Y nosotros lo somos, aunque humanos.
Es nada lo que nos ha sido dado.
No hablemos pues, sólo suspiremos
Porque el tiempo nos mira.
Alguien habrá creado antes de ti el sol,
Y la luna, y el cometa, el espacio negro,
Las estrellas infinitas.
Ahora juntos, ¿qué haremos? Sea el mundo
Como barco en el mar, o pan en la mesa,
O el rumoroso lecho.
No se alejó el tiempo, no se fue. Asiste y quiere.
Su mirada aguda ya era una pregunta
A la primera palabra que decimos:
Todo.

PROVAVELMENTE ALEGRÍA, José Saramago

LÁ NO CENTRO DO MAR

Lá no centro do mar, lá nos confins
onde nascem os ventos, onde o sol
sobre as águas doiradas se demora;
Lá no espaço das fontes e verduras,
dos brandos animais, da terra virgem,
onde cantam as aves naturais:
Meu amor, minha ilha descoberta,
é de longe, da vida naufragada,
que descanso nas praias do teu ventre,
enquanto lentamente as mãos do vento,
ao passar sobre o peito e as colinas,
erguem ondas de fogo em movimento.