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domingo, 20 de julio de 2014

AMOR PLETÓRICO

El espíritu enamoradizo de Vinicius de Moraes lo llevó a vivir una maratónica locura de siete relaciones con mujeres a quienes en su momento amó y posiblemente siguió amando. ¿Sus palabras habrán sido tejidas a partir de la complejidad de su experiencia? o ¿de un anhelo que podría haberse dibujado en una platónica fantasía? La belleza de sus palabras resuenan en mi mente.



PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor. 

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. 

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. 

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. 

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor... 

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor? 

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor. 

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor. 

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.



domingo, 20 de octubre de 2013

AMIGA MINHA, HOJE NO CÉU A LUA, ViniciusDe Moraes

Amiga minha, hoje no céu a Lua
Tem uma face que me lembra a tua
A Lua é sempre assim, ou é teu rosto
Que dorme no céu posto, amiga minha?

Ah, desce do teu nicho, rosto puro
E vem iluminar meu leito escuro.

Astro solitário, ó Sol
Ilumina meu poema da tua claridade matinal
Transfunde-lhe nas veias o éter com o azul
E torna-o simples.

A VOCÊ, COM AMOR, Vinicius De Moraes

O amor é o murmúrio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...

O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...



E a música inaudível...

O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...




O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.

martes, 22 de enero de 2013

Vinicius, no plural. Paixão, Poesia e Carnaval. Homenaje en el Carnaval de Brasil 2013

En el Carnaval de Brasil 2013 la Union da Ilha do Governador ha escogido como tema para su presentación la vida del poeta, diplomático, compositor y dramaturgo VINICIUS DE MORAES.

La sinopsis preparada por Alex de Souza  lo presenta así:



Vinicius de Moraes cuja pluralidade é reconhecida em suas obras, pensamentos e 
paixões receberá por ocasião do seu centenário nossa homenagem. Para 
compreender melhor o homem e o poeta, resolvemos criar um diálogo imaginário, 
tomando como respostas seus poemas, contos e entrevistas.                                        

En relación a la poesía el diálogo imaginario destaca la influencia paterna en su desarrollo:


A POESIA
ILHA - Quando nasceu a poesia na sua vida?
POETA - A poesia paterna, que encontrara numa gaveta velha em casa, foi a minha 
grande e decisiva influência. Desejei imenso fazer versos assim, versos de amor. Eu 
havia sempre laborado na arte da poesia, desde os mais verdes anos. Às vezes, em meio aos brinquedos com os irmãos, na Ilha do Governador, fugia e ia me ocultar no quarto, 
a folha de papel diante de mim. 
Era tão estranho aquilo! Eu de nada sabia ainda, senão que tinha nove anos e Cocotá 
era o meu mundo, com sua praia de lodo, seu cajueiro e seus guaiamuns. Mas sabia 
vibrar em presença da folha branca que me pedia versos, viva como uma epiderme que 
pede carinho.
O menino dentro de seu quarto dentro da Ilha, dentro da baía, dentro da cidade, dentro 
do país, dentro do mar, dentro do mundo. 
Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia.            
Linha por linha, como psicografado, o poema - o meu primeiro poema - começou a 
brotar de mim.                                                                                                                                     
Amava era amar. Amava a mulher. A mais não poder. Por isso fazia seu grão de poesia 
E achava bonita a palavra escrita. Por isso sofria. Da melancolia de sonhar o poeta 
que quem sabe um dia poderia ser. 
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos - eles mostravam os grandes olhos abertos.
A poesia é tão vital para mim que ela chega a ser o retrato de minha vida. Portanto 
julgar minha poesia seria julgar minha vida. E eu me considero um ser tão imperfeito...                     
Pensei que nunca poderia ser poeta.
ILHA - E os Poetas ?
POETA - Me liguei muito a Bandeira, Drummond, Pedro Nava e outros...

Uno de los temas que se tratarán guarda relación con la película Orfeu da Conceição  La preciosa canción "A FELICIDADE" es cantada con verdadera hermosura. Es esa felicidad efímera, la causa de dicha que hoy aún es vigente... la felicidad del pobre, de quienes viven en las favelas, por estar presente en esa mañana de Carnaval. Es el compromiso con algo grande, es la identidad, es el baile, es la música, es el arte, es la disciplina por hallar un logro, es la fuerza de la unión, es la integración a una comunidad, es el sabor de patria... Cuántas cosas se desarrollan para un día tan especial, cuántos talentos, cuántos sueños. Es que la pobreza no se da en el bolsillo, la pobreza se da en el alma y muchos de ellos son verdaderamente ricos.... con los pies descalzos, no se distraen en la vanalidad.
¡¡¡Que mi amada Brasil, los tenga siempre presentes!!!


Tristeza não tem fim                                                                                                 
Felicidade sim                                                                                                                             
(...)A felicidade é como a gota                                                                                                     
(...)E cai como uma lágrima de amor                                                                                      
A felicidade do pobre parece                                                                                              
A grande ilusão do carnaval                                                                                          
(...)Pra tudo se acabar na quarta-feira






La música es un legado muy preciado, por ello hablar de Bossa Nova es imperioso en este homenaje y el tema se da así:

BOSSA NOVA
ILHA - Fale-me de sua música. 
POETA - Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que 
está nos livros da que está nas canções. Era uma insatisfação minha verificar que a 
poesia de livro atingia um número tão reduzido de pessoas.                                        
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu 
repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e 
minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas 
antigas. Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o 
resto.                                                                                                                                   
A música começou mesmo na década de 50, quando voltei de meu primeiro postodiplomático no exterior, em Los Angeles. Agora, eu sempre fazia minhas músicas, antes, mesmo sozinho, mas sem nenhum intuito de editar ou ver cantar. Aos 15 anos  tive uma experiência interessante: eu me liguei a uma dupla vocal, que havia aqui, chamada Irmãos Tapajós, e comecei a compor com eles.                                             
ILHA - Durante os cerca de quatro anos em solo americano, você se apaixonou  pelo jazz, que futuramente seria uma das raízes fundamentais para a Bossa Nova.  Tom Jobim teve uma formação semelhante e João Gilberto, no interior da Bahia,  também se interessava pelo mesmo estilo musical e, coincidentemente, teve as  mesmas influências dos músicos cariocas. E o marco foi “Chega de saudade”, com  Elizeth Cardoso e depois gravado por João Gilberto.                                                      
Você acha que a influência do jazz foi boa para a bossa nova? 
POETA - Acho que foi uma influência muito boa. Com a influência do jazz, abriu tudo 
isso, você podia introduzir qualquer instrumento num conjunto de samba, os  instrumentistas improvisavam, as harmonias melhoraram muito e se enriqueceram, os  instrumentistas tornaram-se excelentes e conheciam profundamente seus instrumentos,  como é o caso de aden e Tom. A influência foi benéfica porque houve uma   descaracterização de nossa música. O samba estava sempre presente na bossa nova. 
Além disso, a bossa nova trouxe mais alegria e bom humor à nossa música, que andava 
muito voltada para a tristeza, a dor de corno, a fossa, naquela época do Antonio Maria. 
Eram músicas muito bonitas, o chamado samba de boate. Com a bossa nova a coisa  ficou mais sadia, mais otimista, os sentimentos eram mais de comunicação, mais legais.                                                                                                                                        
Bossa nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um  recado que uma mensagem.

Vai, minha tristeza 
E diz a ela que sem ela não pode ser 
Diz-lhe numa prece 
Que ela regresse 
Porque eu não posso mais sofrer 
Chega de saudade 
A realidade é que sem ela 
Não há paz, não há beleza 
É só tristeza e a melancolia 
Que não sai de mim 
Não sai de mim 
Não sai
Tanto assim que eu sou um dos pouquíssimos compositores brasileiros que atravessou 
essas gerações todas. Eu fiz música com o Pixinguinha, o Ary Barroso, com o pessoal 
da geração do Antonio Maria, o Paulinho Soledade; depois peguei o Tom, o Baden, o 
Carlos Lyra, o Edu, o Francis e, em 69, o Toquinho. E mesmo com caras mais jovens 
que o Toquinho eu já fiz música, como o Eduardo Souto Neto, o João Bosco.  



Es que adoro a Vinicius De Moraes, Tom Jobim, Toquinho, Joao Gilberto, Caetano Veloso, Chico Buarque,Dorival Caymmi, Jaques Morelenbaum, Rosa Passos, Gal Costa, Marcos Valle, Wanda Sá, Roberto Menescal, Nara Leao, Elian Elias, Maria Bethania. Los sambistas Arnoldo Cruz, Jorge Aragao, Luiz Melodia, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, .. Paulinho da Viola, Fundo do quintal, Diogo Nogueira, Joao Nogueira.....y muchísimos más.

Brasil.... mi corazón nació allí.... "Meu Brasil Brasileiro"
María Cecilia




sábado, 5 de enero de 2013

A Mulher Que Passa - Vinicius De Moraes

Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! como és linda, mulher que passas 
Que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pêlos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
Por que me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passas? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida? 
Para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio 
Do teu martírio que nunca cessa 
Meu Deus, eu quero, quero depressa 
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.

A Hora Íntima - Vinicius De Moraes


Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: - Nunca fez mal... 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: - Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: - Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: - Não há de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?

Rio de Janeiro, 1950.

A brusca poesia da mulher amada - Vinicius De Moraes

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente... 
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor - oh, a mulher amada é como a fonte! 
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo 
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido 
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? 
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente? 

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios 
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados... 

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias 
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.



II
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio 
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite 
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada 
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos 
astros. 
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada 
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula 
E o elemento verde antagônico. A mulher amada 
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro 
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso 
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen. 
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada 
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite 
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada 
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica 
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada. 
Nascitura. Nascitura da mulher amada 
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher 
amada 
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? - a mulher amada! 
Quem colhe a tempestade? - a mulher amada! 
Quem determina os meridianos? - a mulher amada! 
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada. 
Talvegue, estrela, petardo 
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada 
Quando! E de outro não seja, pois é ela 
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita 
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda 
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta 
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades. 
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas. 
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!


III
A Nelita 

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado 
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido 
herói sem mácula 
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a 
bilirrubina 
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco 
quilos 
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as 
confidências 
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas 
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia. 
Eis que se anuncia de modo sumamente grave 
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância 
já me chega o rastro. 
É ela uma menina, parece de plumas 
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos 
ventos 
Empós meu canto. É ela uma menina. 
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina 
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes 
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos 
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos 
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas 
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras. 
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa 
Em rodopios nítidos 
Criando vácuos onde morrem as aves. 
Seu corpo, pouco a pouco 
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo 
Como uma escura rosa voltejante 
Surgida de um jardim imenso em trevas. 
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos! 
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos! 
Alvoroçai-me, auroras nascituras! 
Eis que chega de longe, como a estrela 
De longe, como o tempo 
A minha amada última!




A ausente - Vinicius De Moraes

Amiga, infinitamente amiga 
Em algum lugar teu coração bate por mim 
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus. 
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios 
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas 
Como que cega ao meu encontro... 
Amiga, última doçura 
A tranqüilidade suavizou a minha pele 
E os meus cabelos. Só meu ventre 
Te espera, cheio de raízes e de sombras. 
Vem, amiga 
Minha nudez é absoluta 
Meus olhos são espelhos para o teu desejo 
E meu peito é tábua de suplícios 
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes 
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim 
Como no mar, vem nadar em mim como no mar 
Vem te afogar em mim, amiga minha 
Em mim como no mar...

Soneto Do Amor Total - Vinicius De Moraes


Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.



Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.



Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.



E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.